Bitcoin e criptomoedas: a utopia da neutralidade e a realidade política do dinheiro

(Editora UFRJ, 2020)

Daniel Kosinski Bitcoin e Criptomoedas Livro
Daniel Kosinski Bitcoin e Criptomoedas Livro Verso

Confira também a Apresentação, o Sumário e a Ficha Catalográfica do livro.

Desde janeiro de 2009, quando começou a funcionar, o bitcoin é a realização de um ideal de privacidade de informações na era da internet e de criação de um meio eletrônico de transferência de bens e direitos - aquilo que nas práticas comerciais abertas é chamado de "moeda" - que seria descentralizado, não institucional e reservado a uma rede de relações anônimas.

Porém, esse propósito de realizar uma ordem monetária anárquica não demorou a servir à ambição de competir com os governos. Num claro desafio aos comandantes governamentais do dinheiro, os criadores e usuários do bitcoin apresentaram-no como objeto apolítico que estaria superando e inviabilizando aquele objeto governamental que pretendem declarar obsoleto e de quem querem, com o bitcoin e as demais criptomoedas que inspirou, tomar o lugar. Assim, não demoraram a anunciar o advento de uma era de despolitização monetária com a sua consequente liberdade monetária individual.

O fato, todavia, é que os entusiastas das criptomoedas ainda estão muito distantes do esclarecimento sobre o que vem a ser esse monetarismo virtual. Estudioso de trabalhos que seguem pelo caminho da descoberta do caráter político do dinheiro, Daniel Kosinski duvidou do advento dessa era, o que não o impediu de fazer perguntas a respeito do novo fenômeno. Assim, tendo como referência aquela que é a mais influente e cobiçada criação política da história da humanidade – o dinheiro –, deu início a uma investigação da realidade do bitcoin e demais criptomoedas, a qual tem os seus primeiros resultados neste livro.

Passando em revista as origens intelectuais, propriedades técnicas e o ideário político associado ao bitcoin, Daniel Kosinski mostra como e por que se deu a sua inevitável “politização”. Adiante, coerente com a diferença dos significados que dá às palavras “dinheiro” e “moeda”, demonstra que o bitcoin não é dinheiro, apenas moeda. Também indica que os governos não demoraram a se dar conta do desafio proposto e partiram para adaptar as tecnologias das criptomoedas ao seu controle, utilizando-as para contornar sanções internacionais e instituir as suas próprias moedas digitais. Além disso, considerando as suas regras rígidas de emissão e a inexistência de taxas de juros aplicadas sobre elas, afirma que as criptomoedas não se prestam ao capitalismo, fenômeno monetário em que o uso do dinheiro como meio de comando tem por finalidade a sua própria acumulação.

Assim, tudo indica, ainda não foi dessa vez que o sonho da moeda despolitizada se realizou. O bitcoin e as demais criptomoedas terão de encontrar o seu lugar neste mundo e, o que é provável, numa ordem política como objetos subordinados.

Enfim, Bitcoin e criptomoedas: a utopia da neutralidade e a realidade política do dinheiro é um trabalho de excelente nível em que Daniel Kosinski eleva a teoria política à altura da atualidade tecnológica que trouxe esse desafio monetário.

Veja também:

O Governo JK e as raízes getulistas da orientação do capitalismo no Brasil

(Ed. Prismas, 2015)

Apresentação

Publicado em 2015 pela Editora Prismas com direito a um concorrido evento de lançamento na então renomada Livraria Cultura da Rua Senador Dantas, no Centro do Rio de Janeiro, "O Governo JK e as raízes getulistas da orientação do capitalismo no Brasil" é um livro escrito com o espírito de transformação do passado como objeto de saber.

Nele, o autor apresenta relações entre os governos de Getúlio Vargas e o governo de Juscelino que contrariam referências convencionais e moralistas feitas por consagrados pensadores brasileiros, propondo novas referências e sempre evitando dar créditos à errônea ideia de "intervenção do Estado na economia" para, em seu lugar, indicar o papel ativo e indispensável dos governos no capitalismo como comandantes e orientadores desse fenômeno monetário que em geral só se atribui a burgueses.

Afastando-se de teorias e modelos inspirados em realidades estranhas ao Brasil, o autor concede ao capitalismo brasileiro e à industrialização que o acompanhou o direito de ter os seus problemas e as suas teses, relacionando burgueses, burguesia e governos como ainda não se fez na nossa literatura política. Por isso, a industrialização do Brasil não é tratada como resultado de qualquer determinismo histórico. Com efeito, o autor deixa bem claro que sem seus principais idealizadores, sem a luta tantas vezes inglória de pioneiros e, principalmente, sem a tomada decisiva de iniciativas pelos governos, ela continuaria a ser apenas um sonho brasileiro.

Todavia, dentre os governos decorrentes da Revolução de 1930, coube ao Governo Kubitschek o papel decisivo para fazer do Brasil um país industrializado e efetivamente capitalista. Por isso, o Plano de Metas é tratado como proposta histórica no mais amplo sentido, não tendo sido um conjunto de objetivos tirados de algum manual de Economia, mas um plano para o Brasil que JK interpretou e projetou como o próprio espírito daquela revolução, haja vista a combinação de industrialização e capitalismo com a proteção social aos trabalhadores.

Enfim, Daniel Kosinski reforça os argumentos em favor da inserção histórica do Governo Kubitschek num período marcado pela liderança maior de Getúlio Vargas, sem tirar de Juscelino a capacidade de liderar, em rigor, de comandar o capitalismo no Brasil. Muito menos lhe tira o mérito de compreender a história do Brasil, o engrandecendo como líder e dando ao leitor um belo exemplo de governo que não escondeu ou caráter político do capitalismo.

Confira também o Sumário e a Ficha Catalográfica do livro. 

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